Flávio Dino ao Conversa Afiada: “vitória da Direita não dura”

O  jornalista Paulo Henrique Amorim,
dono do conversa Afiada, entrevistou por telefone, na segunda (31), o
governador do Maranhão, Flavio Dino, do PCdoB, que confirmou uma ampla vitória
nas eleições para prefeitos no Estado, inclusive, no segundo turno, em São Luís,
com Edivaldo Holanda Jr, do PDT.
PHA: Primeiro, o que significa essa
vitória em São Luís?
Dino: Duas questões fundamentais
explicam essa importante vitória. Primeiro, a capacidade de gerar resultados
positivos para a população – políticas públicas, obras, serviços. E, em segundo
lugar, destaco uma articulação política ampla, uma ampla frente de partidos,
capaz de sustentar a candidatura do Edivaldo e leva-lo à vitória. Acho que a
combinação dessas duas coisas explica o sucesso que tivemos em São Luís e na
imensa maioria das cidades do estado.
PHA: O senhor concorda com a tese,
hoje, na manchete dos jornais principais daqui do Sul, de que houve uma guinada
significativa à direita e uma vitória acachapante do PSDB?
Dino: Em primeiro lugar, é claro que
houve uma guinada à direita. Não me parece duradoura, mas é significativa, sem
dúvida. Acho que é típica de períodos de crise econômica muito profunda, já se
estende por quase uma década, dizimando empregos e perspectivas de progresso
social.
Não me parece, contudo, que você possa
identificar uma força partidária como vitoriosa na eleição. Isso me parece mais
torcida do que propriamente análise. Na verdade, o que nós tivemos foi a
vitória de uma ideologia, hoje, hegemônica, marcada pela anti-política. E isso
se traduziu, por exemplo, na vitória do absenteísmo no Rio de Janeiro, em Belo
Horizonte, em Porto Alegre – e em São Paulo também, no primeiro turno.
Então, na verdade, nós temos mais uma
hegemonia da anti-política do que, propriamente, a vitória de um único ator
partidário isolado. A bem da verdade, quem perdeu a eleição foi a política. De
um modo geral, o sistema partidário da Nova República foi posto em cheque.
Basta olhar que foram candidatos inorgânicos, desvinculados a essa trajetória, que
venceram em São Paulo, no Rio e em Belo Horizonte.
PHA: O senhor falou que a vitória não é
duradoura. O que fazer para que, em 2018, o campo de esquerda possa ganhar de
novo?
Dino: É preciso uma revisão
programática, olhar menos para trás e mais para a frente. Acho que seria um
grande erro incorrer nessas armadilhas dos setores conservadores, que cobram
uma suposta autocrítica. Acho que não é esse o esforço principal.
Na verdade, é preciso reconstituir um
programa baseado nas ideias de desenvolvimento e de direitos sociais e serviços
públicos. E, a partir desse programa, constituir uma frente política ampla,
capaz de sustentá-lo, e de dialogar com o eleitor médio – o chamado centro
político.
Quando eu me refiro ao centro, não falo
do partido A, B ou C, mas, sim, ao centro na sociedade. Esse eleitor médio que
acabou optando ou por alternativas exóticas, especialmente nesse segundo turno,
ou por, simplesmente, se ausentar. É esse cidadão, é essa cidadã quem deve ser
novamente atraído pela esquerda a partir de um novo programa.
PHA: O seu companheiro de partido, o
ex-ministro Aldo Rebelo, e o próprio presidente Lula, com quem estive
recentemente, falam que é preciso fazer um movimento em direção ao centro do
espectro político. É a isso que o senhor se refere?
Dino: Não me refiro a isso em termos
partidários, porque me parece que isso, hoje, é até inviável. Me refiro mais do
ponto de vista da sociedade. Acho que, por uma série de razões, inclusive pelo
massacre midiático pós-2013, a esquerda acabou indo muito pro canto do ringue,
ficando muito até no gueto, num certo sentido, reduzida a 20% ou 25% da
sociedade.
Quando eu refiro a disputar o centro,
me refiro menos a partidos, a legendas partidárias, e mais ao que se passa na
sociedade, em que esse eleitor, que não se identifica com a ideologia A ou B,
acabou, nesta eleição – ao meu ver, em razão da crise econômica -, sendo
atraído por figuras bastante esquisitas, bastante estranhas. Ou pela ideia de
que a política não é capaz de resolver seus problemas. Isso se traduz nessa
enorme ausência das urnas.
Eu acho que o sistema partidário vem
como uma consequência dessa compreensão, de que você precisa ter um discurso
mais amplo. Acho que a derrota dos candidatos do PSOL no segundo turno mostra
que é um grande equívoco você não procurar dialogar com setores sociais mais
amplos. Muito mais do que partido A ou B.
Não sei exatamente o que Lula e Aldo
estão pensando, mas eu imagino que isso, uma reorganização partidária, é
consequência mais de uma atitude política em relação à sociedade do que
propriamente você olhar apenas pro Congresso Nacional.
PHA: O que que o senhor imagina que
será o governo Temer daqui pra frente? Ele dura?
Dino: Depende de um fator imponderável
na conjuntura, que ninguém domina, ninguém de dentro do sistema político
institucional domina, que é a Operação Lava Jato. Acho que essa é a variável
bastante poderosa pra responder essa questão, pra definir isso.
Acho, portanto, equivocada essa ideia
de que houve um plebiscito em 2016 e, nesse plebiscito, o Golpe foi vitorioso.
Acho que não foi nada – rigorosamente nada – disso. Essa questão não passou na
cabeça do povo na hora de votar. Muito mais pesou a crise econômica, o
desemprego, a quebra de perspectiva de melhoria da qualidade de vida do que
propriamente questões pertinentes à corrupção ou Golpe ou algo do tipo.
Portanto, acho que a eleição municipal
de 2016 não responde à tua pergunta. Acho que tua pergunta está muito mais
vinculada ao que vai acontecer com a Operação Lava Jato – que, acho, está num
momento crucial de responder, inclusive, às críticas quanto à seletividade de
suas atitudes.

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